A tirzepatida colocou novamente em evidência uma discussão importante sobre obesidade: se perder peso dependesse apenas de comer menos e ter mais força de vontade, por que medicamentos que atuam nos mecanismos de fome e saciedade conseguem produzir resultados tão expressivos?
A resposta passa pela forma como nosso organismo regula fome, saciedade, metabolismo e comportamento alimentar.
E essa discussão se torna ainda mais interessante quando olhamos para pessoas que utilizam medicamentos que podem favorecer o ganho de peso, como alguns antidepressivos e antipsicóticos.
Hoje, já existem dados mostrando que é possível obter perda de peso mesmo quando determinados medicamentos associados ao ganho de peso precisam ser mantidos. A tirzepatida é uma das estratégias que vêm sendo estudadas nesse contexto.

O que a tirzepatida nos ajuda a entender sobre fome e saciedade
A fome não depende exclusivamente de uma decisão consciente de comer.
Nosso organismo possui diferentes mecanismos envolvidos em determinar quando sentimos fome, quanto precisamos comer para nos sentirmos satisfeitos e como respondemos aos alimentos.
Hormônios, cérebro, sistema de recompensa e sinais provenientes do próprio tecido adiposo participam desse processo.
É justamente por isso que a obesidade não pode ser explicada apenas como resultado de “comer demais”.
Quando os mecanismos que regulam fome e saciedade estão alterados, a experiência alimentar também pode mudar. Uma pessoa pode sentir mais fome, demorar mais para atingir a saciedade ou perceber maior interesse por determinados alimentos.
Medicamentos como a tirzepatida atuam justamente em vias envolvidas nessa regulação.
Por isso, a discussão sobre essas novas terapias também contribui para desfazer uma ideia antiga: o peso corporal não é determinado apenas pela força de vontade.
Alguns medicamentos também podem favorecer o ganho de peso
Essa relação é especialmente importante quando falamos de saúde mental.
Alguns medicamentos psiquiátricos, principalmente determinados antipsicóticos, podem atuar em mecanismos relacionados à fome, saciedade e metabolismo.
Entre os mecanismos apresentados estão alterações em vias histaminérgicas e serotoninérgicas, na sinalização de GLP-1, na resposta à leptina e em circuitos hipotalâmicos envolvidos na regulação da fome.
Na prática, isso ajuda a explicar por que algumas pessoas percebem mudanças no apetite ou no peso depois de iniciar determinados tratamentos.
E existe um ponto ainda mais importante: as alterações metabólicas podem começar antes de uma mudança significativa aparecer na balança.
Aumento dos triglicérides, redução do HDL, maior resistência à insulina e alterações relacionadas à saciedade e ao metabolismo podem surgir nesse processo.
Por isso, acompanhar apenas o peso pode não ser suficiente.
Se o medicamento está contribuindo para o ganho de peso, é preciso parar?
Não necessariamente.
Se uma medicação está sendo importante para o controle de um quadro psiquiátrico, simplesmente suspendê-la por causa do ganho de peso pode não ser possível — e nem sempre será a melhor estratégia.
A decisão precisa considerar os benefícios daquele tratamento, as alternativas disponíveis e o risco metabólico individual.
E é justamente aqui que surge uma pergunta importante:
é possível tratar o excesso de peso mesmo quando o paciente precisa continuar utilizando uma medicação que favorece esse ganho?
Os estudos mais recentes começam a trazer respostas interessantes para essa questão.
Onde a tirzepatida entra nessa história?
Um dos estudos apresentados avaliou pessoas que utilizavam medicamentos associados ao ganho de peso, incluindo antidepressivos, antipsicóticos e corticosteroides.
A pergunta era bastante prática: essas medicações poderiam diminuir o efeito da tirzepatida sobre o peso?
Nos dados apresentados, a perda de peso permaneceu expressiva mesmo entre as pessoas que utilizavam esses medicamentos.
Esse resultado traz uma perspectiva importante para a prática clínica.
Precisar manter uma medicação que favorece o ganho de peso não significa, necessariamente, que seja impossível tratar a obesidade.
Isso é particularmente relevante em saúde mental, porque nem sempre retirar uma medicação eficaz é uma opção adequada.
Ao mesmo tempo, esse resultado não significa que toda pessoa que ganhou peso durante um tratamento deva utilizar tirzepatida. A indicação precisa ser individualizada e considerar o quadro clínico como um todo.
Tirzepatida não é a única estratégia possível
O avanço das terapias voltadas ao tratamento da obesidade ampliou consideravelmente as possibilidades disponíveis, mas isso não significa que exista uma única opção adequada para todos.
Uma revisão apresentada sobre intervenções farmacológicas para perda de peso em pacientes com esquizofrenia tratados com antipsicóticos reuniu aproximadamente 95 ensaios clínicos, 6 mil pacientes e 39 intervenções farmacológicas.
Entre os resultados apresentados, a semaglutida esteve associada a uma redução de aproximadamente 11 kg, enquanto a liraglutida apresentou cerca de 5 kg e a metformina, quase 4 kg. O topiramato também apresentou redução relevante.
Mas comparar esses medicamentos apenas pelo número de quilos perdidos seria uma simplificação.
E a metformina? Perdeu espaço?
Não.
Embora estratégias incretínicas tenham apresentado efeitos mais expressivos sobre o peso nos dados discutidos, a metformina continua ocupando um papel importante.
Ela é uma medicação conhecida, amplamente disponível, de menor custo e com possibilidade de utilização em diferentes contextos. Algumas diretrizes discutidas no material apresentado consideram inclusive sua introdução precoce em determinados pacientes com maior risco metabólico que utilizam antipsicóticos.
Portanto, a pergunta não deveria ser simplesmente:
“Qual medicamento emagrece mais?”
É preciso entender o objetivo do tratamento, o risco metabólico, as condições de saúde do paciente, os outros medicamentos utilizados, o acesso e as características individuais.
Metabolismo não é apenas o número que aparece na balança
Uma das mudanças mais importantes nessa discussão é justamente deixar de enxergar saúde metabólica como sinônimo de peso.
Uma pessoa pode apresentar alterações metabólicas antes de perceber uma mudança importante no próprio corpo.
Por isso, dependendo do caso, acompanhar a saúde metabólica pode envolver não apenas peso, mas também glicemia, perfil lipídico, resistência à insulina e risco cardiovascular.
Isso se torna ainda mais relevante quando determinados medicamentos necessários para a saúde mental apresentam impacto metabólico.
O objetivo deixa de ser simplesmente “evitar engordar” e passa a ser preservar a saúde do paciente ao longo do tratamento.
Saúde mental e saúde metabólica não precisam competir
Durante muito tempo, alguns pacientes se viram diante de um dilema difícil: uma medicação melhora significativamente os sintomas psiquiátricos, mas vem acompanhada de mudanças importantes no peso ou no metabolismo.
Hoje, essa discussão está se tornando mais ampla.
Além de novas estratégias para tratar o excesso de peso, também estão sendo estudados antipsicóticos e combinações com perfis metabólicos diferentes, justamente para tentar preservar a eficácia do tratamento sem produzir o mesmo impacto metabólico observado com algumas opções tradicionais.
Isso reforça uma mudança importante na forma de pensar o cuidado:
não precisamos olhar para saúde mental de um lado e metabolismo do outro.
Fome, saciedade, peso, medicamentos, sono, comportamento alimentar, exames metabólicos e sintomas psiquiátricos podem fazer parte de uma mesma avaliação.
E a tirzepatida é apenas uma das ferramentas que podem entrar nessa discussão — não o ponto final dela.
Se você percebeu mudanças importantes na fome, no peso ou no metabolismo durante um tratamento, uma avaliação individualizada pode ajudar a entender os fatores envolvidos e quais estratégias fazem sentido para o seu caso.
Na minha clínica, saúde mental e saúde metabólica são avaliadas de forma integrada. Se você deseja um acompanhamento que considere esses diferentes fatores, entre em contato com a nossa equipe para agendar uma avaliação.
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