Psiquiatria e Endocrinologia: quando testosterona, sofrimento psíquico e cultura da performance se encontram

Nos últimos anos, algo mudou dentro dos consultórios. Cada vez mais pacientes chegam trazendo exames hormonais, ou chegam com implantes hormonais, uso de testosterona transdérmica, relatos de baixa energia, cansaço, perda de motivação, dificuldade de concentração, queda de libido, piora da performance física ou sensação subjetiva de “não estar rendendo”.

E, junto disso, cresce também a expectativa de que exista uma solução biológica rápida para
sofrimentos que são muitas vezes multifatoriais, emocionais, relacionais, sociais e existenciais.

A testosterona passou a ocupar um lugar simbólico importante na cultura contemporânea. Ela deixou
de ser vista apenas como um hormônio relacionado ao hipogonadismo verdadeiro e passou a
representar potência, produtividade, disposição, performance, corpo ideal, masculinidade e até
sucesso.

E é inegável que níveis supra fisiológicos de testosterona podem aumentar massa muscular, libido, sensação de energia, motivação e até alguns aspectos relacionados à performance e cognição.

O problema é que esses efeitos costumam ser apresentados de forma dissociada dos custos físicos e mentais envolvidos. Porque com o ganho de performance também aumentam riscos importantes:

Isso aproxima inevitavelmente a endocrinologia da psiquiatria. Porque hormônios não atuam apenas no corpo. Eles também impactam sono, humor, impulsividade, ansiedade, agressividade, cognição, libido e regulação emocional.

Na endocrinologia, existe indicação legítima e muito importante para reposição hormonal quando há deficiência real e documentada.

Nos homens, essa condição recebe o nome de hipogonadismo e pode ocorrer por diversas causas — entre elas doenças congênitas, alterações metabólicas associadas à obesidade, traumas testiculares e alterações hipofisárias.

Mas o hipogonadismo verdadeiro não é tão frequente quanto a banalização contemporânea da testosterona faz parecer. O problema começa quando sintomas inespecíficos da vida contemporânea passam a ser interpretados automaticamente como “falta de testosterona”, cansaço, desmotivação, baixa produtividade, tristeza, dificuldade de emagrecer, sensação de vazio e exaustão.

Nem sempre isso é hipogonadismo. Às vezes é privação crônica de sono, burnout, ansiedade, depressão, uso de substâncias químicas, sedentarismo, solidão, conflitos relacionais, excesso de estímulo, desorganização emocional ou simplesmente o esgotamento de uma cultura que exige performance contínua.

Outro ponto importante — e pouco discutido — é que, quando homens iniciam testosterona sem indicação clara, o organismo frequentemente reduz ou interrompe sua própria produção hormonal. O corpo entende que já existe testosterona suficiente circulando e “desliga” parcialmente o eixo hormonal
natural.

E muitos pacientes acabam entrando em um ciclo difícil de interromper:
tentam parar e se sentem piores > sem energia > sem libido > desmotivados > deprimidos;
fisicamente diferentes. Então retomam o uso.

Antes de iniciar qualquer tratamento hormonal, considero muito importante uma avaliação ampla — incluindo saúde mental, sono, uso de substâncias, estilo de vida, relações, alimentação e funcionamento emocional. Porque muitas vezes existem alternativas menos nocivas e mais sustentáveis para tratar sofrimento psíquico, desmotivação, ansiedade, compulsividade, baixa energia e dificuldade de performance.

E mesmo para pacientes que já iniciaram testosterona e se percebem dependentes do hormônio, existe
possibilidade de cuidado e reorganização. Na psiquiatria, frequentemente trabalhamos com estratégias de redução de danos, estabilização emocional, manejo de compulsividade, ansiedade, humor, sono e uso de substâncias, enquanto o organismo tenta recuperar gradualmente sua produção hormonal natural em um manejo interdisciplinar cuidadoso.

Na prática clínica, é cada vez mais comum observar pacientes sem deficiência hormonal clara iniciando uso de testosterona ou anabolizantes após “check-ups hormonais”, muitas vezes com promessas de bem-estar, energia, melhora corporal ou aumento de performance. E sim: frequentemente existe melhora inicial subjetiva. Mais energia. Mais disposição. Mais libido. Mais motivação. Mais confiança.

Mas isso não significa necessariamente que havia uma doença hormonal. Da mesma forma que estimulantes podem aumentar foco e produtividade em alguém sem TDAH, testosterona em doses supra fisiológicas também pode produzir sensação de potência em pessoas sem deficiência hormonal.

O problema é que o custo psíquico disso costuma ser pouco discutido. Na interface com a psiquiatria, observamos aumento importante de irritabilidade, impulsividade, agressividade, ansiedade, instabilidade emocional, piora da tolerância à frustração, insônia, hipervigilância, comportamento de risco e dependência psicológica.

Em alguns casos, existe inclusive piora importante de traços de personalidade previamente existentes. Pacientes mais impulsivos tornam-se mais explosivos. Pacientes mais narcísicos tornam-se mais intolerantes à crítica.

Pacientes ansiosos tornam-se mais agitados. Pacientes com vulnerabilidade ao uso de substâncias podem intensificar padrões compulsivos. E isso se torna ainda mais intenso quando associado a privação de sono, álcool, cannabis, estimulantes, estresse crônico, cultura de alta performance, redes sociais e pressão estética.

Nas mulheres, essa discussão ganha contornos ainda mais delicados. Hoje existe uma banalização crescente do uso de testosterona feminina dentro do universo da estética, wellness e performance cotidiana.

Muitas pacientes chegam acreditando ter “testosterona baixa” como explicação para cansaço, dificuldade de emagrecer, baixa libido ou falta de energia. Mas a endocrinologia séria mostra que essa associação é muito mais complexa do que parece.

Nem toda fadiga é hormonal. Nem toda baixa libido é testosterona. Nem toda desmotivação é deficiência biológica. Muitas vezes estamos diante de sofrimento psíquico, sobrecarga mental, relações adoecidas, exaustão emocional, privação de descanso e desconexão do próprio corpo.

Outro ponto importante é a banalização dos implantes hormonais e “chips da beleza”. Apesar do discurso moderno e sedutor, ainda existem muitas lacunas científicas sobre segurança, farmacocinética e efeitos de longo prazo desses implantes usados com finalidade estética e de performance.

Como médica da área da saúde mental, me preocupa especialmente quando hormônios começam a ser utilizados como tentativa de resolver sofrimentos humanos complexos sem espaço para reflexão mais profunda sobre estilo de vida, subjetividade, relações, saúde mental e funcionamento emocional.

Muitas vezes, antes de uma indicação hormonal precipitada, o paciente mereceria uma avaliação psiquiátrica cuidadosa. Porque o corpo não é uma máquina simples de aumentar potência sem custo.

E talvez uma das perguntas mais importantes hoje seja: até que ponto estamos tratando doenças reais — e até que ponto estamos medicalizando os limites humanos diante de uma cultura que não tolera cansaço, vulnerabilidade ou imperfeição?