Talvez seja impossível compreender os transtornos alimentares atuais sem compreender a cultura
contemporânea.
Vivemos em uma sociedade que monetiza insegurança corporal, glorifica hiperperformance física e transforma corpo em capital social. As redes sociais ampliaram comparação constante, vigilância alimentar e exposição contínua a corpos idealizados.
Muitos comportamentos adoecidos hoje aparecem travestidos de: – disciplina; – alta performance; – foco; – “clean eating”; – autocuidado. A ortorexia, por exemplo, descreve uma preocupação obsessiva com alimentação considerada “limpa” ou “saudável”, associada a rigidez extrema, culpa intensa e
necessidade patológica de controle.
Já a vigorexia envolve preocupação obsessiva com muscularidade, treino compulsivo e uso abusivo de anabolizantes. Mesmo com grande hipertrofia muscular, muitos indivíduos continuam se percebendo insuficientemente fortes.
A relação entre obesidade, compulsão alimentar e saúde mental também é extremamente complexa. Muitos pacientes utilizam comida como estratégia de regulação emocional diante de ansiedade, vazio,
estresse ou sofrimento psíquico.
Por isso, reduzir o debate apenas ao peso corporal ou à estética é simplificar excessivamente algo muito mais profundo. Os transtornos alimentares falam sobre: – controle; – pertencimento; – perfeccionismo; – identidade; – inadequação; – vergonha; – necessidade de aceitação; – sofrimento emocional. Muitas vezes, antes mesmo de alterações físicas importantes, o sofrimento psíquico já está presente.
E frequentemente ele permanece invisível. Reconhecer transtornos alimentares hoje exige olhar além do corpo. Exige compreender subjetividade, cultura, sofrimento emocional e as pressões contemporâneas que transformaram alimentação, estética e performance em marcadores de valor pessoal.